02/09/2020 – Destaque Econômico

Lições e desafios associados à implementação do Forward Guidance no Brasil

Lições e desafios associados à implementação do Forward Guidance no Brasil

  A grande novidade contida na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) é a introdução de uma “prescrição futura” como instrumento adicional de política monetária no Brasil. O parágrafo 23 do documento sinalizou que o Banco Central (BCB) não tem a intenção de elevar a taxa de juros enquanto o cenário de inflação estiver apontando projeções “suficientemente próximas” das metas de 2021 e 2022 e que essa intenção é condicional ao cenário fiscal e à ancoragem das expectativas de inflação. Trata-se, a nosso ver, de um passo importante em termos de transparência e comunicação, que precisa ser bem compreendido para que não gere impactos indesejados sobre os preços de ativos e o lado real da economia. Neste Destaque Depec-Bradesco, trazemos à discussão algumas lições e alguns desafios associados ao uso desse instrumento, conhecido como forward guidance (FG).  
O objetivo primordial do forward guidance é aumentar a efetividade da política monetária, influenciando as expectativas dos agentes em determinada direção. Como destacado na ata do Copom, essa sinalização de intenção futura tende a ajustar as expectativas na parte intermediária da curva de juros. Esse ponto é relevante, pois a parte mais longa da curva sofre influência decrescente das ações e sinalizações da autoridade monetária, reagindo à combinação de vários outros fatores. Trata-se de um estágio mais avançado de transparência, que pode ser utilizado de forma estrutural no arcabouço do regime de metas de inflação ou de maneira mais circunstancial, por exemplo, quando o juro nominal está próximo ao que se acredita ser o seu limite inferior (Effective Lower Bound, ELB). Em ambos os casos, o aspecto crucial é a explicitação, por parte do banco central, de sua intenção para a trajetória futura da taxa de juros de curtíssimo prazo, o que pode ocorrer qualitativa ou quantitativamente. Essa sinalização, para ser incorporada corretamente pelos agentes, deve ser claramente comunicada e percebida como um comprometimento crível.   As lições que emergem dessa discussão para a realidade brasileira, até mesmo olhando as experiências de países que adotam o regime de metas de inflação, são: (a) o forward guidance deve ser utilizado com condicionalidades a determinado cenário; e (b) o esforço comunicacional, com a sua utilização, deve ser ainda maior. A julgar pela ata da última reunião do Copom, ambas as lições serão incorporadas. Ao mesmo tempo, porém, o público precisa estar preparado para observar desvios entre o que foi apontando como intenção e o que de fato ocorreu. Tais desvios do juro efetivo em relação ao sinalizado como intenção, frequentes em países que adotam o regime de metas de inflação, não precisam ser vistos como um problema. Em primeiro lugar, pela explicitação crível e clara da condicionalidade que baliza a intenção da autoridade monetária. É como se o formulador de política monetária dissesse: “se ocorrer X, a minha projeção atual para a taxa de juros é Y e entregarei Y”. O BC não será julgado se não ocorrer o cenário previsto, mas sim se ocorrer X e não entregar Y. Em segundo lugar, porque o cenário econômico está sujeito a choques exógenos que, por definição, não são previsíveis. Dessa forma, o banco central continuará ancorando expectativas e não perderá credibilidade se responder de forma consistente a mudanças de cenário, o que implica compartilhar claramente suas percepções sobre tais mudanças.   A despeito dos benefícios da adoção do FG, há alguns riscos relevantes na sua adoção que, se materializados, poderão gerar impactos adversos, arranhando a credibilidade do BC, diminuindo a eficiência da política monetária e gerando custos desnecessários para a sociedade. Tais riscos, ainda maiores em países emergentes, podem ter natureza relacionada à compreensão sobre o que é o FG e o seu uso ou comunicacional, relativa à clareza na transmissão das intenções do BC. Se por uma dessas duas naturezas ou ambas os agentes não compreenderem bem a intenção explicitada pelo formulador de política monetária e a sua condicionalidade, eventuais desvios dos juros poderão gerar custos reputacionais ao BC, desancorar as expectativas, gerar uma volatilidade endógena dos preços de ativos e afetar a confiança dos agentes econômicos. Esse ponto é ainda mais relevante em momentos de (i) mudanças abruptas no cenário, que exigirão respostas diferentes das previstas anteriormente, mas que devem ser percebidas como consistentes; e (ii) quando o grau de incerteza é maior, levando a erros mais frequentes de previsão de cenário, do BC e dos agentes. Se bem desenhado e comunicado, o FG brasileiro não tende a engessar a ação do BCB, dando-lhe a flexibilidade necessária para atuar de acordo com o que é requerido diante do cenário vigente, ao mesmo tempo em que tende a reduzir a volatilidade das taxas de juros de mercado, pelo menos na parte que se refere à política monetária. Os benefícios dessa maior transparência seriam potencializados com a autonomia formal do BCB, com a percepção de que a ação é consistente com os condicionantes do FG e com a renovação frequente do compromisso do governo com trajetórias fiscais sustentáveis.  
Fonte: Departamento Pesquisas e Estudos Econômicos Bradesco
Notícia selecionada por Meirelles e Meirelles Advogados – Empresarial Limeira SP